O Porto de Santos passou a abastecer navios com etanol de forma regular. A primeira operação dessa nova fase foi em 19 de outubro de 2026, no porta-contêineres CMA CGM IRON, de 13 mil TEUs e motor tricombustível certificado para etanol.
Para quem vive o comércio exterior, a notícia vai além do porto. Ela mostra para onde caminha o custo, a regulação e a reputação do transporte de cargas nos próximos anos.
O que aconteceu
Santos se tornou o primeiro porto da América Latina a oferecer abastecimento de navios com etanol de forma regular. A fase regular começou em 19 de outubro de 2026 e foi anunciada oficialmente em 23 de outubro pelos parceiros e pela Autoridade Portuária de Santos (APS).
O caminho até aqui teve duas etapas:
- 12 de julho de 2026, operação pioneira. O CMA CGM IRON recebeu etanol de cana pela primeira vez em Santos. Segundo a Bunker One, foram cerca de 500 mil litros de etanol anidro, o primeiro abastecimento desse tipo em um navio de longo curso na América Latina.
- 19 de outubro de 2026, início da fase regular. O mesmo navio voltou a ser abastecido, agora dentro de um calendário contínuo. Novas operações com navios da CMA CGM e etanol da Copersucar estão previstas até o fim de 2026.
O navio. O CMA CGM IRON é um porta-contêineres de 13 mil TEUs. Ele é o primeiro de uma série de 12 navios iguais da CMA CGM equipados com o motor Everllence B&W G95ME-C10.5-LGIM. É apresentado como o primeiro motor tricombustível do mundo certificado para operar com bioetanol, além de metanol e óleo combustível.
Quem faz a operação acontecer:
| Empresa | Papel na operação |
| CMA CGM | Armadora, dona do navio |
| Copersucar | Fornecedora do etanol de cana |
| Evolua Etanol | Transporte do etanol até Santos |
| AGEO Terminais | Armazenagem dedicada no porto |
| Bunker One | Abastecimento por barcaça até o costado do navio |
| Santos Brasil (Tecon Santos) | Terminal onde o navio atraca durante o abastecimento |
| Autoridade Portuária de Santos | Gestão do porto e regras da operação |
O etanol passa por cinco empresas antes de entrar no tanque do navio. A etapa final acontece com o navio atracado no terminal.
Fontes: Seatrade Maritime, CMA CGM, Hellenic Shipping News, eixos.
Por que etanol no mar
O transporte marítimo precisa cortar emissões rápido, e o etanol é uma das poucas opções de baixo carbono já disponíveis em escala. A Organização Marítima Internacional (IMO) fixou em 2023 metas para o setor, medidas contra os níveis de 2008:
- 2030: cortar pelo menos 20% das emissões, buscando 30%. Ao menos 5% da energia usada deve vir de combustíveis de emissão zero ou quase zero, buscando 10%.
- 2040: cortar pelo menos 70%, buscando 80%.
- Por volta de 2050: emissões líquidas zero.
Para cumprir essas metas, a IMO negocia o Net-Zero Framework, que criaria um preço global sobre as emissões dos navios acima de 5.000 toneladas de arqueação bruta. A votação foi adiada em outubro de 2025 por 57 votos a 49 e está prevista para uma sessão extraordinária em dezembro de 2026. Se aprovado, o sistema pode entrar em vigor a partir de 2028.
Na prática, poluir vai ficar mais caro. Por isso os armadores estão encomendando navios capazes de usar mais de um combustível. A CMA CGM prevê operar cerca de 200 porta-contêineres aptos a combustíveis de menor carbono até 2031.
Quanto o etanol reduz. Estimativas iniciais divulgadas na viagem de julho apontam redução de 67% a 70% nas emissões em comparação com o combustível fóssil tradicional. Os parceiros ainda não publicaram um número oficial para a fase regular.
Os concorrentes do etanol. O setor testa GNL, metanol, amônia e hidrogênio. O metanol é o mais próximo do etanol, e motores como o do CMA CGM IRON aceitam os dois. A vantagem do etanol é que o Brasil já produz bilhões de litros por ano, com cadeia logística pronta.
Fontes: IAPH, Carbon Brief, King & Spalding, The AgriBiz.
O Brasil tem o combustível e o porto
O Brasil reúne duas coisas que poucos países têm juntas: produção de etanol em grande escala e o maior porto da América Latina.
Produção. A Conab estima cerca de 37,5 bilhões de litros de etanol na safra 2025/26, somando cana e milho. Desse total, cerca de 14,1 bilhões são de etanol anidro, o tipo usado no abastecimento do CMA CGM IRON. A indústria projeta um recorde de cerca de 40 bilhões de litros na safra 2026/27.
Porto. Santos movimentou 186,4 milhões de toneladas em 2025, alta de 3,6% sobre 2024. Foram 5,9 milhões de TEUs em contêineres, alta de 7,7%. Com tanto navio passando por ali, oferecer um combustível novo tem demanda garantida.
Distância curta. Boa parte das usinas fica no interior de São Paulo e no Centro-Oeste, a poucas centenas de quilômetros do litoral. O etanol que antes só abastecia carros agora pode virar combustível de navio sem sair do país. Para Flavio Ribeiro, CEO da Bunker One LatAm, isso pode atrair a Santos armadores que querem reduzir emissões.
O desafio é escala. Reportagem da The AgriBiz aponta custo e regulação como os principais freios para o etanol virar combustível marítimo de uso amplo.
Fontes: Brasil Agro, Money Times, InfoMoney, RPAnews, The AgriBiz.
O que muda para o comércio exterior
A mudança começa no navio, mas chega em toda a cadeia de quem importa e exporta.
- Frete e sobretaxas. Com um preço global de carbono no horizonte, os armadores tendem a repassar o custo das emissões no frete. Rotas e navios que usam combustível de menor carbono ficam menos expostos a essas cobranças.
- Exigência dos compradores. Grandes importadores, principalmente na Europa, já pedem a pegada de carbono do transporte. Exportar por um navio abastecido com etanol vira argumento comercial.
- Relatórios de emissões. Empresas que publicam relatórios ESG precisam medir as emissões da logística contratada, o chamado Escopo 3. Isso inclui o trecho marítimo e também o rodoviário.
- Competitividade de Santos. Um porto que oferece combustível limpo atrai mais escalas, mais serviços e mais opções de rota para o exportador brasileiro.
A carga ainda chega ao porto pela estrada. Cerca de 65% das cargas movimentadas no Brasil passam pelas rodovias, segundo o Plano Nacional de Logística e a CNT. Antes de embarcar em um navio movido a etanol, o contêiner quase sempre percorre um trecho de caminhão. Por isso o transporte rodoviário faz parte da conta de carbono do comércio exterior.
Fontes: Mundo Logística, ONTL / Infra S.A., King & Spalding.
A visão da BS Transporte Logística
Na BS, vemos o etanol nos navios como um sinal claro: a logística do comércio exterior vai ser cobrada pelo carbono de ponta a ponta. O navio é só uma parte da viagem. A carga sai da fábrica, roda pela estrada e chega ao terminal antes de embarcar.
É nesse trecho em terra que a BS atua. Nosso compromisso é fazer a carga chegar ao porto no prazo, com segurança e com informação clara para o cliente.
O que isso significa para quem trabalha com a BS:
- Planejamento junto ao porto. Acompanhamos a rotina de Santos, janelas de terminal e mudanças como esta, para que a carga chegue no momento certo do embarque.
- Rotas mais eficientes. Menos quilômetros vazios e menos tempo parado significam menos custo e menos emissão no trecho rodoviário.
- Informação para o cliente. Exportadores e importadores vão precisar de dados de transporte para seus relatórios. Estar perto do cliente é parte do serviço.
Compromisso que move e conecta: é assim que a BS liga a estrada ao porto e o Brasil ao mundo.
Na rota do futuro
O abastecimento regular com etanol em Santos coloca o Brasil em posição de vantagem na descarbonização do transporte marítimo. O país já tem o combustível, o porto e os primeiros navios preparados. Os próximos passos a acompanhar são a votação da IMO em dezembro de 2026 e as novas operações previstas até o fim do ano.
Quer saber como essas mudanças afetam a sua carga? Fale com a BS Transporte Logística e siga @bstransportelogistica no Instagram para acompanhar o quadro Na rota do Comex.